logo

Artigo

5 de Julho de 2016 às 09:56


NOSSA CORRUPÇÃO DE TODO DIA

Nathalie Coutinho Pereira

Enraizadas na sociedade brasileira, as pequenas corrupções são praticadas constantemente no nosso dia a dia. Por serem muitas vezes tão rotineiras, acabaram sendo despercebidas e aceitas culturalmente ao longo dos tempos.

Considera-se, portanto, que não se trata apenas de desvirtuamentos éticos, mas sim de condutas, que em sua maioria são configuradas também como atos ilegais. Exemplos clássicos estão sendo divulgados pela página do facebook da Controladoria Geral da União (CGU), sendo que dentre outras atitudes, temos:

COMPRAR PRODUTOS FALSIFICADOS: Corrupção nossa de cada dia, em que além de ser uma conduta antiética, estamos sujeitos as sanções penais, pois a violação de direito autoral é produto de crime.

NÃO DAR NOTA FISCAL: Corrupção nossa de cada dia, em que o simples ato de não entregar e, principalmente de não cobrarmos estaremos facilitando a lesão ao fisco.

FALSIFICAR ASSINATURAS: Corrupção nossa de cada dia, conduta antiética e ilícita por ser considerado crime de plágio.

ROUBAR TV A CABO: Corrupção nossa de cada dia, conhecido como gato, constituindo-se de um ato ilícito por ser equiparado como o crime de subtração a coisa alheia móvel.

APRESENTAR ATESTADO MÉDICO FALSO: Corrupção nossa de cada dia que se enquadra em crimes de falsidade ideológica e falsidade de atestado médico por quem entrega e uso de documento falso por quem utiliza.

Inúmeras outras pequenas corrupções são praticadas corriqueiramente, tendo a gravidade, muitas vezes, ignorada pelo meio social. Continuamos com tais condutas, sem perceber que independente do grau, estamos prejudicando a sociedade, apesar das grandes corrupções tomarem maiores proporções.

O que vemos atualmente é que ao se falar de corrupção associamos impulsivamente a classe política, desconsiderando que no anonimato procedemos também com deslealdade e desrespeito com os nossos semelhantes: jogamos lixo na rua, furamos fila, aceitamos troco errado etc. A corrupção não está limitada apenas ao ambiente público, este é apenas reflexo do que temos visto no nosso dia a dia.

Devemos ter um posicionamento diferente em relação a nossa corrupção rotineira, observando que tais atitudes interferem nas relações sociais, transformando-se num ciclo vicioso, trazendo prejuízos econômicos e morais para a sociedade. Situação que está gerando um ambiente social, cuja convivência aos poucos, torna-se insuportável e a desconfiança passa a ser o lema de sobrevivência.

E, enquanto a corrupção acentua-se de forma significativa no nosso dia a dia...

Como vamos cobrar a mudança do contexto corrupto praticado em todas as esferas dos poderes?

Como vamos pedir uma revolução de valores e princípios éticos e morais?

Como vamos exigir uma metamorfose radical das consciências dos cidadãos, se todos nós o somos?

Praticar e aceitar pequenas corrupções autorizam a permanência das grandes corrupções. Costumamos atirar pedras no politico desonesto e, no anonimato procedermos com igual falta de escrúpulos com os nossos semelhantes. Isso é o que caracteriza-se como falta de educação para a ética e a cidadania. Valores que passam a ser banalizados, porque ninguém os ensina.

A educação é a única alternativa capaz de transformar essa realidade. Através do processo de conscientização e, principalmente do engajamento nas instituições escolares é que teremos um resultado, mesmo que a longo prazo.

Não é preciso apenas acreditarmos, é preciso atitude. Entendermos que a nossa corrupção de todo dia é uma cultura que legitima as maiores corrupções. Entendermos que nós mesmos é que somos a resposta para as nossas próprias perguntas no que refere-se aos problemas sociais existentes no nosso país. Entendermos que deve haver primeiramente uma mudança no nível micro.

Por enquanto, tento disseminar o assunto nos mais variados ambientes sociais, acreditando que com fé, coragem, determinação, dedicação, atitude e mobilização, acredito que um dia posso não viver, mas verei de algum lugar nossas gerações vindouras vivendo num país de oportunidades e de igualdade. Verei um sistema diferenciado, em que as relações sociais serão mais saudáveis e desinteressadas e a valorização do “ser” ser substituído pelo “ter”, a essência preponderando sobre a aparência.

E, finalmente no último tijolo da construção, na última fruta daquela pequena semente plantada, verei que a sociedade já alcançou a verdadeira coexistência pacifica e todos os seres já haviam resgatados o mais puro dos princípios da natureza humana: A HONESTIDADE. E, de algum lugar renascerei só para ter a certeza que todos os sonhos, por mais utópicos que eles aparentam serem, um dia eles se tornarão reais, pois algum dia podemos colher o que plantamos num futuro que só a Deus pertence.